Filhos de Alguém. |
um lugar para o amor. |
Com um tema bastante polêmico, a 29ª bienal de São Paulo, parece tímida e pouco impactante.
A 29ª Bienal de Artes de São Paulo saiu de uma profunda crise, eternizada pela “Bienal do Vazio” e as cenas de vandalismo (ou seria arte?), na edição de 2008, para voltar consolidando o posto de um dos eventos mais importantes da arte contemporânea. Com mais dinheiro em caixa, o prestígio reconquistado e com organização mais focada artisticamente, a edição deste ano pecou pela falta de ousadia, pelo medo de transgredir e abusar do tema “arte e política”, que é a proposta para esta edição.
Salvo poucos artistas, ainda me pergunto porque alguns foram convidados para lá exporem. Não só por fugirem totalmente do tema proposto, mas por suas obras não terem impacto algum, e não causarem nada em seu espectador. Simplesmente estavam lá, sem nada a acrescentar. Acredito que a arte seja subjetiva, mas daí concluir que não importa o que você faça, basta chamar de arte, já é demais.
Quem não fugiu da proposta e fez uma das obras mais belas e significativas da Bienal foi o recifense Gil Vicente. Em “Inimigos” ele expressou em desenhos feitos com carvão o desprezo que tem por autoridades religiosas e políticas, que poderiam, mas não representam a sociedade, vivendo alheios à realidade contemporânea. Lula, George W. Bush, Elizabeth II, Armadinejad, Papa Bento XVI, dentre outros, estão ali, retratados em desenhos realistas, pouco antes de serem assassinados pelo artista, em cenas descritas pela OAB de São Paulo como “apologias ao crime por incitarem atentados terroristas”, mas que na verdade representam o que o povo sente em relação a essas autoridades, um sentimento de esgotamento por esses que dizem nos representar. E que diga o contrário quem não sentiu o mesmo no momento em que viu a imagem de Bush indefeso, ao chão, prestes a ser assassinado por Gil Vicente, com um olhar de culpa e arrependimento. Isso sim é arte transgressora. Chocar para expressar os anseios de uma sociedade, de um tempo.
Muitos entendem e defendem que a pixação seja considerada arte transgressora. E após o ato de vandalismo na Bienal passada a edição deste ano deu voz e espaço a essa “arte” que polui, destrói e que é nada além de contraventora. Para tentar dissolver a contenda entre os “artistas/pixadores” e o evento, foi compilada uma coleção de fotos e vídeos documentando esses atos de “expressões gráficas” como meio de “ação política”. O que não impediu que mais uma vez ocorresse outro ato de vandalismo, desta vez contra algumas das obras em exposição. Vimos mais uma vez que essa arte que dizem ser transgressora não passa de contravenção praticada por jovens insolentes.
Um dos espaços que mais me chamaram a atenção foi a instalação do americano Jimmie Durham intitulada “International Center for Research of Normal Phenomena”. Nela o artista fez uma pequena análise do que encontrou na cidade de São Paulo, e utilizando uma grande compilação de citações, textos, fotos e objetos que reunidos mostram uma cidade com inúmeros prédios residenciais de nomes pomposos e arquitetura neoclássica, numa tentativa inútil [e fútil] de remeter ao mundo do requinte europeu, e shoppings chiques, cheios de lojas de grife, à beira de rios poluídos, para encenar um conto de fadas moderno. E para completar, um boneco representando o Bandeirante do século 21, um típico senhor engravatado, rico, e pronto, quem sabe, para desbravar o mercado financeiro, ou caçar uma vaga na política.
Uma coisa que não pode deixar de ser comentada é como a Bienal está se tornando um evento restritivo, castrante e constrangedor. A começar pela recepção. Agora o visitante é recebido com revista seguida por um detector de metais. E como se não bastasse o “momento batida policial”, um batalhão de seguranças segue quem eles julgam “suspeitos” (no caso, um jovem com mochila nas costas). Você querendo apreciar a obra, analisar e discutir com seus amigos, enquanto um segurança à espreita segue seus passos é tudo, menos agradável. O engraçado é que toda essa hostilidade não impediu novas cenas de vandalismo. Vai entender…
Por Rafael Cerdeira
Serviço
Parque Ibirapuera. Segunda a Quarta das 9 às 19h. Quinta e Sexta das 9 as 22h. Sábado e Domingo das 9 às 19h — Entrada Gratuita
Até 12/12/2010
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Arroz e feijão · 1979 / 2007 · instalação · mesa de fórmica; 20 cadeiras pretas; pratos; copos; talheres; terra; sementes de arroz e feijão; prateleiras e vídeo em TV · mesa 540 × 120 cm; dimensões totais variáveis · coleção: artista
350 Points towards Infinity [350 pontos rumo ao infinito] · 2009 · instalação · fios de prumo; ímãs · 485 × 950 × 950 cm · cortesia: Galerie Johann Koenig, Berlim; Galerie Emmanuel Perrotin, Paris; Almine Rech Gallery, Bruxelas
Auto-retrato matando George Bush · 2005 · da série: Inimigos · desenho · carvão sobre papel · 150 × 200 cm · coleção: artista
Beggars [Pedintes] · 2010 · videoinstalação · HD, 7 canais, sem som · cortesia: artista; Thomas Dane Gallery, Londres
A origem do terceiro mundo · 2010 · instalação site-specific · madeira; PVC; outros · dimensões variáveis · foto: artista · comissionado por: Fundação Bienal de São Paulo